quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A casa decadente

Na boca dele, o sabor amargo da derrota da infância – a nostalgia inquietante e vasta do nada.
Do zunir de uma palavra ordinária o ouvido sugava a declaração de amor que não existia.
Dos passos já dados, uma verdade inteira do dia de hoje.
Ou de ontem, na mesa do café.
Um vazio completo, a solidão amparada, a cama de lençóis revirados e os olhos muito abertos: conquistas da razão aturdida, amigos em corda bamba e falta.
Ele morria de uma morte rápida e convincente.
Ela morta e não sabia.
A casa decadente – sobre os móveis, a poeira do universo de amar espalhada em fragmentos microscópicos.
As fotos envelhecidas – recordações de andar exausta.
A louça suja;
Os corpos sobre a cama.
E a razão que faltava
[pedia para o poema existir? Para a inocência voltar?]
Um desejo de saúde – para rumar à casa nova – e só: as pernas devem ser resistentes.
Originalmente publicado em 3AM Magazine em 08 de fevereiro de 2009.

3 comentários:

Kau'S disse...

Nossa, simplemente achei " de tirar o folêgo" !
;D
=**

Vâmvú disse...

Lindo escrito criando linda imagem...
Parabéns!
Abração

CARLA ROCHA disse...

Visceral. como sempre! Não suma! Abraço!