terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Vinte e nove

- Oi.
- Quem é?
- Eu.
- E aí?
- Olha, antes que você se assuste: pode abrir o portão e apertar a minha mão. Eu só vim desejar um bom aniversário. Um bom ano e muita felicidade.
- Jura? Não tem nenhum cigarro aí na tua mão? Não veio repetir aquelas coisas todas? Que você me ama, mesmo não devendo e etc.?
- Não. Não vim, não.
- Por que?
- Por que como assim?
- Assim o quê? Nada, sei lá. Espera aí.
- Beleza.
- E aí?
- E aí é isso. Eu tentei ligar mas o número não é mais o mesmo, eu acho. Aí eu pensei: é vinte e nove, o ano acabou, Deus! Vamos acabar tudo direito, então.
- E aí?
- Aí eu queria me desculpar por tudo, por qualquer coisa – mais uma vez – e desejar saúde.
- Só?
- Não. Saúde, principalmente.
Silêncio.
- E o que mais?
- Boa sorte. Dinheiro, essas coisas.
- Me deseja uma namorada! Tô precisando de uma.
- E uma namorada.
- Ah, valeu.
- De nada.
Silêncio.
- Tudo bem?
- Tranqüilo. E aí, o que tú tá fazendo? Trabalhando, estudando?
- Muito. Tudo isso aí. E você?
- Assistindo TV, engordando. Sempre. Mas me fala uma coisa: que tava rolando naquele dia lá do cigarro?
- Por que você acha que era eu?
- Ah, fala sério, porra. Tú tava na minha porta, debaixo de chuva, um cigarro na mão (um de vários, com certeza). Quem mais?
- Podia ser qualquer pessoa.
- Não podia, não.
- Não estava rolando nada. Uma despedida. Um ponto final.
- E isso aqui é o quê?
Levantar de ombros.
- Significa o quê?
- Sabe o engraçado?
- Hum?
- Eu nem sei fumar. Todo mundo diz.
- Tú devia parar de vez, então.
- Já parei.
- Bom.
- É.
Silêncio.
- Era isso.
- Falou, então. A gente se...
- Não.
- Como é que tú sabe que não? Não é tú quem decide.
- Olha: você espera mesmo que alguém tome as decisões por você?
- Como assim?
- Não é uma interrogação. Sabe qual é a grande verdade da qual ninguém se dá conta? No fundo, tudo é ridiculamente muito simples. Mas sei lá: forças ocultas, falta de Deus ou uma tremenda venda nos olhos, a gente deixa passar e justifica dizendo que era complicado. Há! Complicado. Fica com Deus, irmão. Se cuida.
Dois dedos. Mão no coração.
ilustração: cigarettes.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Três

Um quarto escuro
- Nuvens negras indissipáveis.
Um diálogo irrestrito, duas partes de um só:
uma é desejo e asas, outra sabe-se lá.
Uma, pedaço de um mundo de pouca idade;
outra, som indefinível (um grito, uma lamúria, um pedido, um adeus?)
As cinzas dos cigarros falam por nós.
O café forte esquecido na mesa – retratos incendiados de cólera armada e rancor.
- Bota as cartas na mesa pra que eu possa ver o jogo.
Risível, patético – tudo é uma tentativa folhetinesca de desarmar o inadiável.
- Inadiável? A armadura?
- O cansaço.
- Foi fantasia?
- Falta de ocupação!
- Foi covardia!
- Covardia?
- Egoísmo! Se não podias, que não se aproximasse.
- Não tinha opção, era destino.
- Bobagem! À merda com o destino. Destino é só conversa. Se amar era brinquedo, que pulasse a infância e fosses direto pra adolescência da qual nunca saiu.
- Se falas de infância é pela pureza de meu sentimento. Acreditei em histórias com finais felizes!
- E que final que é feliz? Feliz não é o infinito?
- Pois eu quero recomeço. Fim e recomeço.
- Pois que morra e nasça daqui a um milênio.
- Ainda me esperarás?
- Cínico!
- Sem rancor, misericórdia!
- Que há de ter misericórdia uma outra infeliz.
- E como termina?
- Do jeito que começa: com um desejo.
- Desejas que vá ou que fique?
- Desejo paz.
- Paz não terá nem com distância nem proximidade.
- Se desejo o indesejável que se cumpra o meu destino.
- Não mandastes o destino à merda?
- E onde mais estamos?
- Me diga: e como termina?
- Como acaba: um ponto final.
__________

Não há remissão
nem salvação para nós, amor
não há, não há
eu acabo de descobrir e desmorono agora
é só dor e só imperfeição, agora
é desespero perfeito e puro
o diabo ri dos nossos tropeços.
___________

Eu me canso de mim mesmo
e sei
que saber não é nada
de nada adianta e para o nada caminha.
O amor era impuro e
de fantasia perdurou e matou.
Eu desconstruo as linhas mas
as palavras são as mesmas de anos atrás.
O sentimento é o mesmo que havia
há dois milênios:
desarmonia e impiedade?
O que eu sinto é um punhado de terra,
jogado para o ar, virando poeira,
um vendaval de planos arquitetados
e mentiras criadas para dar sentido à vida.
Que caminho e que verdade?
Que ponto de honestidade?
Eu não duvido do poder
só desconfio do merecimento.
É piada do Deus?
É teatro do Mal?
É história de redenção?
É desgraça para servir como exemplo?
Não é meu esse caderno?
O Senhor não é meu pai?
Eu não quero me arrepender ou me queixar ou perceber o erro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Desajeitado

A lucidez o visitava só raramente.
No restante do tempo era uma clareza falsa e festa -
um desperdício involuntário de sua vida tão jovem.
Companhia de solidão,
almoço e jantar de suas dores
não era bom como podia
nem ruim o suficiente para ser definitivamente feliz.
Só um sopro e estabacaria no chão.

A letra jota

e a montanha insiste em ficar lá, parada
a montanha insiste em ficar lá
para lá
parada,
parada.
para lá, arnaldo antunes.
ilustração: rondando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um

Eu vi um sorriso tingido de nuvem escura e um grunhido me soar familiar e quase inaudível.
Se o sol deixar de brilhar por um instante, como num sonho apocalíptico e medonho, para onde você corre, amor?
O sentimento é todo tão confuso – é como se um grito seco e estridente, de pavor e medo, soterrasse qualquer tentativa de conversas civilizadas, fazendo com que as construções de alvenaria ruíssem, ignorando o propósito do trabalho. É como se falar ou escrever ou outra tentativa qualquer de comunicação soasse falida sempre.
A sombra de tudo o que foi vivido disseca o presente duvidoso e pobre de sentido. Não há certeza e não há loucura, não há motivo.
Pessoas cruzam um caminho torto e de observá-las fez-se um muro no observador.
O observador tem canelas magras e fome da vida que quer.
O observador bebe café sozinho e compra sozinho e sozinho ri não sabe de quê.
Brinca de viver, brinca de afagar mas sabe que o melhor do amor é perder a razão – e para quê tê-la?

Definitivamente, talvez

'À minha querida filha April,
O coração humano tem tesouros ocultos
no segredo mantido, no silêncio selado
os pensamentos, as esperanças, os sonhos,
os prazeres cujo charme se romperia, se revelado'.
Do seu pai que te ama.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

eu não sou eu nem sou o outro
sou qualquer coisa de intermédio
pilar da ponte de tédio
que vai de mim para o outro.
mário de sá carneiro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Visita

'E buscavam compreender o que viviam, confusos por saber pouco e sentir muito'.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O sapo

O menino entendia pouco da língua, o que o amedrontava.
O menino entendia pouco da vida e arremessava-se.
ilustração: the frog.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O que me revela

Daqui desse momento
do meu olhar pra fora
o mundo é só miragem
A sombra do futuro
a sobra do passado
a sombra é uma paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
em nossa recompensa?
Quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante
a tarde faz silêncio
o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
de um tempo que ainda não passou
Por trás do seu sossego, atraso o meu relógio
acalmo a minha pressa
Me dá sua palavra
sussure em meu ouvido
só o que me interessa
A lógica do vento
o caos do pensamento
a paz na solidão
A órbita do tempo
a pausa do retrato
a voz da intuição
A curva do universo
a fórmula do acaso
o alcance da promessa
O salto do desejo
o agora e o infinito
Só o que me interessa.
é o que me interessa, lenine e dudu falcão.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Melodia

uma canção entoada por um amador
cantada
à voz vacilante
tremida
desconfia do apuro do ouvido.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Feliz ano novo

Ao menino que bebe e aproveita de jovens corpos como o seu, uma vida imensa e uma calmaria.
À menina que não sabemos se o 'estou bem' que ela faz ecoar aos quatro cantos é verdadeiro ou esconde uma agonia, a alegria inconstante que faz bem e remedia.
À jovem mãe com ânsia de palco e intensidade apropriada, uma família com saúde e o reconhecimento devido.
À erudita de coração inconsolável, um amor sadio e vida de pacíficas histórias.
Ao jovem desmedido, a permanência de suas virtudes.

A little bit of time

Me dê um minuto.

domingo, 16 de novembro de 2008

Nudez

'Eu não me queixo'.
Da solidão por entre os arranha-céus da cidade de São Paulo ou nas pistas largas e monumentos de concreto de Brasília.
Dos amores doídos e dos peitos escancarados jorrando o sangue que era do meu amor.
Eu não me queixo da falta de amigos ou da falta de um pai, de irmãos ou da falta plena de tudo - o vazio que ora preenche, ora assola.
Nem do trabalho ruim, da fome de paixão e de prazer.
Tu não deves queixar-se se achas que já não acreditas na felicidade da mesma forma que acreditavas aos doze anos de idade - porque aos doze anos todas as realizações são possíveis e não concebe-se de forma alguma a idéia de que obstáculos não possam ser superados.
É a dádiva da infância.
Eu não sei mais o que eu sabia antes.
E nem reclamo.
Por que que descoberta poderei eu fazer, depois de saber do sabor dos teus lábios levemente avermelhados e meus [posse].
Depois de descobrir e descobrir e desnudar tantas pieguices, e despir-me em palavras cada dia mais pesadas, que descoberta?
Só me resta essa nudez , enquanto tu ainda estás de roupa.
Eu não poderia parar e sentar e decidir e mudar e encarar todas as faces robustas e feias das coisas que não queremos.
Porque
o não querer é perigoso.
Eu não posso encarar o perigo se não tenho companhia, só lembranças ameaçadas por sortes e boas coisas.
E não consigo entender [me].
E as palavras? Onde está a leitura que deveriam fazer?
Eu sinto.
ilustração: traço nú.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

No recreio

Eu excursiono pela vida hoje com o olhar atento de quem vê e vive tudo como se fosse o último dia.
Como quem tem para viver apenas os quinze minutos de recreio entre uma aula e outra e nesse intervalo, instalado entre a rotina robótica de nossa existência, nós dançamos feito protótipos de amores infinitos e leais, querendo pra sempre o bom humor das caretas e dos timbres de voz.
ilustração: zoológico, rocío alejandro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Que fazes aqui?


- Que fazes aqui?
- Descobrindo, e tu?
- Indo. O que queres descobrir?
- O que ainda não descobri. Onde queres chegar?
- Onde ainda não fui.
- Onde ainda não foi?
- Onde ainda não descobri.
- Então estás descobrindo, não indo.
- Só posso descobrir indo.
- Não é porque está indo que vai descobrir.
- Então é por quê?
- Podias estar indo para onde já descobristes.
- E tu poderia descobrir o que já descobristes.
- Já descobri o que já descobri.
- E eu já fui para onde já fui.
- Poderias voltar.
- Poderias redescobrir, não descobristes tudo.
- E tu não fostes para todos os lugares de onde viestes.
- É verdade.
- E o que ainda não descobrimos?
- Muito. O que já descobrimos, por exemplo.
- Não há nada para descobrir pela primeira vez?
- Há. O que fazemos aqui, por exemplo.
- Estamos aqui para descobrir.
- E por que temos que descobrir?
- Ainda não descobri, mas pretendo.
- Descobrirás outra coisa.
- O quê?
- Não sei, ainda não descobristes.
- Como sabe que vou descobrir o que nem sabe o que é?
- Se não sei o que é, é porque ainda não descobristes.
- Como pode ‘ser’ se nem sabe o que ‘é’?
- Não sei quem és, não significa que não és.
- E se ainda não tiver me descoberto?
- Então não és.
- Se não sou, não preciso saber o que faço aqui.
- Tem razão, mas já te descobristes.
- Estás certo. Se eu descobrisse antes, não me descobriria.
- E agora, o que fará?
- Sair daqui, e tu?
- Vou contigo, para onde vais?
- Preciso descobrir isso também.
- Como podes ir se nem sabe para onde vai?
- Então vamos ficar aqui.
- E por quê?
- Para descobrir o que fazemos aqui.
- Sim. Somos dois, será fácil descobrir.
tiago júlio, descoberta, de vago.
ilustrações: felipe lima.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Esperando Clarice

Eu sou um menino ainda, moça.
Um menino que sente falta dos amigos todos já maduros,
seguindo com suas vidas tão soltas e tão boas.

Eu sou um menino caído num poço raso,
que sente falta de Deus e da época em que bastava a presença de um amor encardido.

Eu sinto falta de um bom prato de comida,
da geladeira cheia,
de me vestir com as peças de roupa que eu deixo penduradas nos cabides do meu armário sem portas.

Eu estou esperando, Clarice.
Esperando que você venha e me leve correndo para que façamos aquela viagem com que nós dois tanto sonhamos:
eu aqui e você aí, onde quer que você ainda esteja.

Por onde?

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento,
terá os pés na pedra
ou vento no cabelo?
A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento,
dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento,
terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento,
por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?
adriana calcanhotto, seu pensamento.
ilustração: um beijo de saudade, maria joão franco.

No escuro

----------- Eu levantei e o escuro era o eu palpável.
Era a única coisa que eu conhecia: um escuro atordoante e libertador.
Era como se eu finalmente cedesse ao meu não saber, às dúvidas, aos egoísmos.
Que luz?
E era como se perdido eu me encontrasse e como se desnorteado eu me pusesse na vida.
Da intimidade do escuro eu trouxe uma sensação de afago.

sábado, 8 de novembro de 2008

05:55

Estou buscando, estou tentando encontrar.
É um erro?
Melhor seria descartar o que foi vivido e desaperceber-se?
E desapercebendo ressucitar?
Eu não toco ninguém; eu canso.
É um cansaço doído e permanente, uma grande onda que só incomoda, não destrói.
Uma tsunami tímida.
É como se às cinco e cinquenta e cinco o despertador soasse e eu me levantasse sem despertar.
E então sonhasse, e então quisesse e comesse: sem despertar.
E sem despertar eu novamente dormisse e de novo quisesse.
Quisesse dinheiro. Ou amor. Ou quisesse não saber.
Toda dor é um motor.
Um motor potente - ainda que sem pressa.
Toda dor é uma
q
u
e
d
a.
Uma queda igualmente potente.
É quando Deus nos larga por um instante breve e logo nos toma de volta, embora a sensação seja de constante desamparo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Eu queria ser feliz

para quem quer se soltar invento o cais
invento mais que a solidão me dá
invento lua nova a clarear
invento o amor e sei a dor de me lançar
eu queria ser feliz
invento o mar
invento em mim o sonhador
para quem quer me seguir eu quero mais
tenho o caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar.
milton nascimento e ronaldo bastos, cais.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Calado

À porta de mim, um eu quieto.
Mudo e estático, recordo-me
que eu fui o peito nú que abrigou sua cabeça pesada e confusa.
[Os sorrisos eram tristes à medida da tua distância]
Eu não me cansava e não tinha fome
porque nos alimentávamos das substâncias intrínsecas ao nosso contato.
Era um furacão que não devastava,
uma dor que não doía e era bom sentí-la.
Era bom fruir da angústia que não dilacerava,
do tapa que não machucava.
Hoje há um eu calado,
perplexo.
De tão imóvel, quase morto;
de uma morte sem tragédia ou arrebatamento.
Irei sobreviver ao tempo de um segundo?
Eu vou superar.
Levarei tempo, ainda, mas tempo é divino.
Renascido, haverá a dúvida:
deverei olhar para tudo como se fosse a primeira ou a última vez?
ilustração: a little quiet, lost and gray.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Das cinzas

Eu vou superar.
Levarei tempo, ainda, mas tempo é divino.
Renascido, haverá a dúvida: deverei olhar para tudo como se fosse a primeira ou a última vez?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Incólume?

A mediocridade de tudo me espanta e inquieta.
Eu sofro, nada mais é bonito.
Eu morro, torno-me infértil.
Não sou capaz de ser grande, nem tampouco de amar absolutamente, não sou nada.
Oco como o nada. Um nada monstruoso e estarrecedor.
Sou como a terra seca e sádica, uma paisagem sem beleza e razão.
Eu não derramo uma lágrima, mas já não sei ficar de pé.
A covardia me alicia.
E o medo.
Ainda estou tão fraco: eu não tenho ossos.
E nada, nem razão nem desabafo mostram a verdade.
As palavras são um grito: despejo-as para não sufocar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Notas sobre o trivial

Pergunto-me coisas que não sei responder.
Gostaria, mas não sei.
[E para quê respostas? Que farei com elas?]
O mundo parece-me absurdo e patético, estou confuso e às vezes sinto-me sufocado (é uma questão física também).
O meu dia é curto, as horas passam depressa e o tempo devagar.
É o apocalipse, diz a bíblia sagrada.
O fim do mundo.
Onde fica?
Alguém me disse que no fim tudo dá certo e eu acreditei.
É um desespero antigo e permanente,
um desconcerto, um espanto, uma não-definição.
Eu me torno pior?
E essas interrogações, o que esperam?
É uma grandeza desmedida e perigosa à medida que se torna a menor quantidade de uma coisa.
Uma desestrutura, um rompimento com algo que fui e já não sou.
Ou que gostaria.
Uma esfinge sem segredo?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Questions of small account

Quanto vale o show?
Quanto vale o amor?
Quanto vale então fazer das tripas coração?
Quanto vale o som?
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção?
trecho de la plata, jota quest.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Maior, maior, maior

----------- É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares e que mesmo quem carrega um sorriso de alegria desencontrada guarda em algum canto uma agonia em tons de cinza muito escuro.
É que eu descubro que na vida é oito ou oitenta, ou toca ou não toca, não se vive mais ou menos.
[É que eu descobri] que a loucura é a carta de alforria e tenho medo de que a verdade seja diferente. A verdade é sempre uma boa alternativa?
Eu não me domino.
Me duvido e desconheço-me de forma tão plena que chego a compreender-me de maneira absoluta.
É uma auto-indulgência, um perdão.
Eu me perdôo por compreender que a vida é maior, maior, maior.
Que pode e deve ser maior.
Eu posso amar mais.
Comer mais,
dançar mais,
dormir mais,
conversar mais.
Eu posso desejar mais,
escancarar mais.
E posso também querer ser menos,
porque menos não me torna menor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Coma alcoólico

É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O seio

Simone!
Por que você está sempre sorrindo?
Por que você não se importa com os tropeços?
Você foi tocada por Deus?
Você teve bons pais?
Eu só queria um coração bem grande.
Tão grande que coubesse o meu amor.

Marianne,
não esqueça de mim,
guarde-me com carinho.
O meu amor é divino.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sobre lixo e consternação

Lembrando de Fernando Sabino em uma de suas crônicas, adianto que muito provavelmente não saberei reverter-me da seriedade que o assunto exige e que as fotos de Marcos Prado - fotógrafo e diretor do documentário "Estamira" - denunciam. O fato é que toda vez que vejo um animal (sem querer ofender a nossa fauna) jogar lixo na rua, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do sujeitinho levando uma surra que pode variar de acordo com o que tenho em mãos: uma revista, a mochila, ou mesmo o sapato, que tiro abruptamente dos pés e atiro, num lance certeiro que atinge diretamente os córneos do indivíduo. É uma imagem que pode sumir da cabeça rapidamente ou durar toda a viagem (quando o inconsciente é tão sem vergonha que, pela janela, atira uma lata de alumínio ou um saco vazio de Ruffles - fosse cheio ainda ajudava a matar a fome de um miserável).

Ontem, deparei-me mais uma vez com a cena lamentável em que um leviano espalha cretinamente pela rua, papeizinhos amassados de bis.

Coisa que me dói é ver que o homem não tem (ou não quer usar) a capacidade (que eu chamo de bom senso e outros de senso de zelo) para perceber que estamos destruindo o mundo. E que o planeta coitado, sujo, mal cuidado, tem desesperadamente pedido socorro para uma platéia surda e estática, que vê mas não consegue entender e mais do que entender, agir.

Vez ou outra, possuído por um sentimento parecido com o que escrevo agora, enfrento o vagabundo. Uma vez, parado enquanto aguardava condução num ponto de ônibus, vi uma mulher jogar num gesto rápido, quase ao meio da pista, uma garrafa plástica de água mineral. E eu, estupefato:

- Moça, tem uma lixeira ali, bem ao seu lado - disse, quase a implorar que ela se redimisse, ao que a cretina olhou-me de cima a baixo e virou a cara num gesto de desdém quase imcompreensível pra mim.

Fazer o quê? É a contribuição que posso dar, por enquanto. Ao responder a já famosa primeira pergunta, das dez que a revista Marie Claire faz aos entrevistados da sessão Pré-estréia, (Se você fosse Deus e só pudesse tomar uma decisão, qual seria?) diria: "Faria com que o respeito ao próximo fosse o objetivo que o ser humano mais quisesse alcançar. E que fosse o mais fácil de ser alcançado."

E diria isso porque realmente acredito que se pudéssemos reduzir nossa ambição a um desejo principal, seria esse o que nos levaria à concretização de todos os outros.
texto originalmente publicado na casa antiga, em 24/10/2007.
ilustrações: marcos prado.

sábado, 11 de outubro de 2008

Corpo

Eu pedi algo que me adoçasse a boca e a vida, ainda que por um breve instante. Como um pudim com calda consistente, macio, feito há pouco e frio.
[Corpo]
Eu era aquele labirinto complexo e arriscado (e)
eu me temia e me gostava
porque era mesmo tudo um risco
e não havia lugares marcados nem em nossas camas, nem em nossas vidas.
Nossos sonhos eram palpáveis
e o amor não era um precipício, era um convite.
E corpos não eram pedaços de carne, eram oceanos.
ilustração: the little ocean.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Resgate

(...)
Ela, uma vida desgastada pelas emoções - sempre tão à flor da pele.
Que maluca! Maluca desde sempre. Caótica (e como o caos bela e intensa, embora perturbadora). Tão emotiva (que chegava a ser boba), tão sensitiva (que chegava a dominar o mundo, quando o mundo a percebia).
Tão decidida (chegava a entusiasmar), tão
d
e
c
a
d
e
n
t
e (chegava a causar pena).
Ele, tão ingênuo (apesar da libertinagem e safadeza), de caráter tão firme (apesar dos desvios). Tão cheio de valores e de trabalho (como trabalhava, o homem!).
Ela, tão disposta para o amor e os perigos.
Ele, tão equilibrado, sensato e conveniente.
[Mas o diabo do homem, às vezes arranjava um olhar de menino, carente. E assim andava pelos cantos. Ela, chafurdada na lama da paixão (se pudesse) o consolaria, o respeitaria. Lavaria as cuecas e os calçados, prepararia o café e o jantar. Assim, Amélia. E quando nos tempos de lascívia - tão comum nos jovens - o vendaria (com a gravata, como vira num filme) sentaria em seu colo e lhe mordiscaria a orelha. Beijaria-lhe a boca. E o corpo. Faria-o gozar (pra ele) de formas tão inéditas e tão boas. O pobre: tinha malícia e ainda inocência. E a deixava encantada].
(...)
texto: trechos de tão, da casa antiga.
Ilustração: o que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?, richard hamilton.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A descoberta do dia

Não gosto de reticências.

Fragmentos

A verdade é previsível, ordinariamente previsível. A verdade nos despersonaliza?
Eu posso supor uma tempestade que não amedronta e antever intimidades cataclísmicas.
Essa paixão é fome? Ou é gula?
É céu? Ou selva?
É esgotamento - esse prelúdio é aflito e morno e a constatação do estado medíocre me aterroriza.
O passado não nos revela, o que nos revela é o presente.
Ilustração: paisagem tempestuosa, rembrandt.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Que importa o sentido?

Eu é que estava iluminado e desconhecendo essa luz sentia-me diferente?
Eu quis voltar mas resisti: regredir é o pecado maior e mesmo quando há retorno é um retorno que acompanha a evolução.
(Depois as pistas molhadas. Os carros e as janelas molhadas da chuva que me desperta e desnorteia)
Eu caminho num caminho novo e difícil - é sempre difícil fazer a escolha certa.
Resistiremos, estaremos sãos quando acabar a caminhada trêmula, de pernas magras e cansadas? Não sei, definitivamente.
O que vejo e enfim compreendo é que não há de haver obrigações com nada a não ser comigo e com minha satisfação - mas do que depende a minha satisfação? Do bem-estar alheio, do trabalho bem feito? De não deixar e não sofrer marcas demais?
Demais é uma palavra triste e arrastada. É letal.
Viver é letal, e de não suportar o peso a palavra é morta.
E em tudo o que não há sentido, há algo de honestidade tão ampla que é desconcertante concebê-la simples, cabível na rotina do existir sem viver.
E, verdadeiramente, o 'que importa o sentido, se tudo vibra'?
Ilustração: the bed, maria joão franco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Tempero

"Me ensina a não andar com os pés no chão."
beatriz, chico buarque e edu lobo

Vamos fugir para Salvador!
Tirar a roupa nos quartinhos
das casas coloridas e aconchegantes,
passar o carnaval na rua,
vendo as carnes balançarem suadas e quentes.
Vamos sair, amor.
No sol quente do dia
vamos sorrir cheios de dentes.
Vamos falar coisas que só nós entendemos
e calar o que só pede pés no chão.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Achado do momento em que procuro

Descansa a vontade
Descompasso incessante
Lapsos a perseguir meu ventre
Brandas chamas - o corpo clemente.
Floresço flor de laranjeira
Displicente e calma
Envelheço em rugas sábias
Assobios intempéries.
(...)
Já não sou Maria
Tão pouco imaculada.
kauana r., de manteiga de kakau.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Primeiras impressões de um vôo raso e desajeitado

Do outro lado eu ainda não me percebo.
Não sei como é ser feliz - estou descobrindo.
Estou des-cobrindo as pessoas e a cara da vida e do mundo real, aquele que pulsa em batidas violentas e sem ritmo.
Eu tenho que ordenar tudo.
Eu que me criei na desordem, na insanidade de um mundo só meu e fundo.
Eu, que queria ter crescido com sotaque.

Aviso

É melhor ser alegre que ser triste
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração
mas para fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não.
baden powell e vinícius de moraes, samba da bênção.