sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Incólume?

A mediocridade de tudo me espanta e inquieta.
Eu sofro, nada mais é bonito.
Eu morro, torno-me infértil.
Não sou capaz de ser grande, nem tampouco de amar absolutamente, não sou nada.
Oco como o nada. Um nada monstruoso e estarrecedor.
Sou como a terra seca e sádica, uma paisagem sem beleza e razão.
Eu não derramo uma lágrima, mas já não sei ficar de pé.
A covardia me alicia.
E o medo.
Ainda estou tão fraco: eu não tenho ossos.
E nada, nem razão nem desabafo mostram a verdade.
As palavras são um grito: despejo-as para não sufocar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Notas sobre o trivial

Pergunto-me coisas que não sei responder.
Gostaria, mas não sei.
[E para quê respostas? Que farei com elas?]
O mundo parece-me absurdo e patético, estou confuso e às vezes sinto-me sufocado (é uma questão física também).
O meu dia é curto, as horas passam depressa e o tempo devagar.
É o apocalipse, diz a bíblia sagrada.
O fim do mundo.
Onde fica?
Alguém me disse que no fim tudo dá certo e eu acreditei.
É um desespero antigo e permanente,
um desconcerto, um espanto, uma não-definição.
Eu me torno pior?
E essas interrogações, o que esperam?
É uma grandeza desmedida e perigosa à medida que se torna a menor quantidade de uma coisa.
Uma desestrutura, um rompimento com algo que fui e já não sou.
Ou que gostaria.
Uma esfinge sem segredo?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Questions of small account

Quanto vale o show?
Quanto vale o amor?
Quanto vale então fazer das tripas coração?
Quanto vale o som?
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção?
trecho de la plata, jota quest.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Maior, maior, maior

----------- É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares e que mesmo quem carrega um sorriso de alegria desencontrada guarda em algum canto uma agonia em tons de cinza muito escuro.
É que eu descubro que na vida é oito ou oitenta, ou toca ou não toca, não se vive mais ou menos.
[É que eu descobri] que a loucura é a carta de alforria e tenho medo de que a verdade seja diferente. A verdade é sempre uma boa alternativa?
Eu não me domino.
Me duvido e desconheço-me de forma tão plena que chego a compreender-me de maneira absoluta.
É uma auto-indulgência, um perdão.
Eu me perdôo por compreender que a vida é maior, maior, maior.
Que pode e deve ser maior.
Eu posso amar mais.
Comer mais,
dançar mais,
dormir mais,
conversar mais.
Eu posso desejar mais,
escancarar mais.
E posso também querer ser menos,
porque menos não me torna menor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Coma alcoólico

É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O seio

Simone!
Por que você está sempre sorrindo?
Por que você não se importa com os tropeços?
Você foi tocada por Deus?
Você teve bons pais?
Eu só queria um coração bem grande.
Tão grande que coubesse o meu amor.

Marianne,
não esqueça de mim,
guarde-me com carinho.
O meu amor é divino.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sobre lixo e consternação

Lembrando de Fernando Sabino em uma de suas crônicas, adianto que muito provavelmente não saberei reverter-me da seriedade que o assunto exige e que as fotos de Marcos Prado - fotógrafo e diretor do documentário "Estamira" - denunciam. O fato é que toda vez que vejo um animal (sem querer ofender a nossa fauna) jogar lixo na rua, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do sujeitinho levando uma surra que pode variar de acordo com o que tenho em mãos: uma revista, a mochila, ou mesmo o sapato, que tiro abruptamente dos pés e atiro, num lance certeiro que atinge diretamente os córneos do indivíduo. É uma imagem que pode sumir da cabeça rapidamente ou durar toda a viagem (quando o inconsciente é tão sem vergonha que, pela janela, atira uma lata de alumínio ou um saco vazio de Ruffles - fosse cheio ainda ajudava a matar a fome de um miserável).

Ontem, deparei-me mais uma vez com a cena lamentável em que um leviano espalha cretinamente pela rua, papeizinhos amassados de bis.

Coisa que me dói é ver que o homem não tem (ou não quer usar) a capacidade (que eu chamo de bom senso e outros de senso de zelo) para perceber que estamos destruindo o mundo. E que o planeta coitado, sujo, mal cuidado, tem desesperadamente pedido socorro para uma platéia surda e estática, que vê mas não consegue entender e mais do que entender, agir.

Vez ou outra, possuído por um sentimento parecido com o que escrevo agora, enfrento o vagabundo. Uma vez, parado enquanto aguardava condução num ponto de ônibus, vi uma mulher jogar num gesto rápido, quase ao meio da pista, uma garrafa plástica de água mineral. E eu, estupefato:

- Moça, tem uma lixeira ali, bem ao seu lado - disse, quase a implorar que ela se redimisse, ao que a cretina olhou-me de cima a baixo e virou a cara num gesto de desdém quase imcompreensível pra mim.

Fazer o quê? É a contribuição que posso dar, por enquanto. Ao responder a já famosa primeira pergunta, das dez que a revista Marie Claire faz aos entrevistados da sessão Pré-estréia, (Se você fosse Deus e só pudesse tomar uma decisão, qual seria?) diria: "Faria com que o respeito ao próximo fosse o objetivo que o ser humano mais quisesse alcançar. E que fosse o mais fácil de ser alcançado."

E diria isso porque realmente acredito que se pudéssemos reduzir nossa ambição a um desejo principal, seria esse o que nos levaria à concretização de todos os outros.
texto originalmente publicado na casa antiga, em 24/10/2007.
ilustrações: marcos prado.

sábado, 11 de outubro de 2008

Corpo

Eu pedi algo que me adoçasse a boca e a vida, ainda que por um breve instante. Como um pudim com calda consistente, macio, feito há pouco e frio.
[Corpo]
Eu era aquele labirinto complexo e arriscado (e)
eu me temia e me gostava
porque era mesmo tudo um risco
e não havia lugares marcados nem em nossas camas, nem em nossas vidas.
Nossos sonhos eram palpáveis
e o amor não era um precipício, era um convite.
E corpos não eram pedaços de carne, eram oceanos.
ilustração: the little ocean.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Resgate

(...)
Ela, uma vida desgastada pelas emoções - sempre tão à flor da pele.
Que maluca! Maluca desde sempre. Caótica (e como o caos bela e intensa, embora perturbadora). Tão emotiva (que chegava a ser boba), tão sensitiva (que chegava a dominar o mundo, quando o mundo a percebia).
Tão decidida (chegava a entusiasmar), tão
d
e
c
a
d
e
n
t
e (chegava a causar pena).
Ele, tão ingênuo (apesar da libertinagem e safadeza), de caráter tão firme (apesar dos desvios). Tão cheio de valores e de trabalho (como trabalhava, o homem!).
Ela, tão disposta para o amor e os perigos.
Ele, tão equilibrado, sensato e conveniente.
[Mas o diabo do homem, às vezes arranjava um olhar de menino, carente. E assim andava pelos cantos. Ela, chafurdada na lama da paixão (se pudesse) o consolaria, o respeitaria. Lavaria as cuecas e os calçados, prepararia o café e o jantar. Assim, Amélia. E quando nos tempos de lascívia - tão comum nos jovens - o vendaria (com a gravata, como vira num filme) sentaria em seu colo e lhe mordiscaria a orelha. Beijaria-lhe a boca. E o corpo. Faria-o gozar (pra ele) de formas tão inéditas e tão boas. O pobre: tinha malícia e ainda inocência. E a deixava encantada].
(...)
texto: trechos de tão, da casa antiga.
Ilustração: o que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?, richard hamilton.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A descoberta do dia

Não gosto de reticências.

Fragmentos

A verdade é previsível, ordinariamente previsível. A verdade nos despersonaliza?
Eu posso supor uma tempestade que não amedronta e antever intimidades cataclísmicas.
Essa paixão é fome? Ou é gula?
É céu? Ou selva?
É esgotamento - esse prelúdio é aflito e morno e a constatação do estado medíocre me aterroriza.
O passado não nos revela, o que nos revela é o presente.
Ilustração: paisagem tempestuosa, rembrandt.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Que importa o sentido?

Eu é que estava iluminado e desconhecendo essa luz sentia-me diferente?
Eu quis voltar mas resisti: regredir é o pecado maior e mesmo quando há retorno é um retorno que acompanha a evolução.
(Depois as pistas molhadas. Os carros e as janelas molhadas da chuva que me desperta e desnorteia)
Eu caminho num caminho novo e difícil - é sempre difícil fazer a escolha certa.
Resistiremos, estaremos sãos quando acabar a caminhada trêmula, de pernas magras e cansadas? Não sei, definitivamente.
O que vejo e enfim compreendo é que não há de haver obrigações com nada a não ser comigo e com minha satisfação - mas do que depende a minha satisfação? Do bem-estar alheio, do trabalho bem feito? De não deixar e não sofrer marcas demais?
Demais é uma palavra triste e arrastada. É letal.
Viver é letal, e de não suportar o peso a palavra é morta.
E em tudo o que não há sentido, há algo de honestidade tão ampla que é desconcertante concebê-la simples, cabível na rotina do existir sem viver.
E, verdadeiramente, o 'que importa o sentido, se tudo vibra'?
Ilustração: the bed, maria joão franco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Tempero

"Me ensina a não andar com os pés no chão."
beatriz, chico buarque e edu lobo

Vamos fugir para Salvador!
Tirar a roupa nos quartinhos
das casas coloridas e aconchegantes,
passar o carnaval na rua,
vendo as carnes balançarem suadas e quentes.
Vamos sair, amor.
No sol quente do dia
vamos sorrir cheios de dentes.
Vamos falar coisas que só nós entendemos
e calar o que só pede pés no chão.