segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Três

Um quarto escuro
- Nuvens negras indissipáveis.
Um diálogo irrestrito, duas partes de um só:
uma é desejo e asas, outra sabe-se lá.
Uma, pedaço de um mundo de pouca idade;
outra, som indefinível (um grito, uma lamúria, um pedido, um adeus?)
As cinzas dos cigarros falam por nós.
O café forte esquecido na mesa – retratos incendiados de cólera armada e rancor.
- Bota as cartas na mesa pra que eu possa ver o jogo.
Risível, patético – tudo é uma tentativa folhetinesca de desarmar o inadiável.
- Inadiável? A armadura?
- O cansaço.
- Foi fantasia?
- Falta de ocupação!
- Foi covardia!
- Covardia?
- Egoísmo! Se não podias, que não se aproximasse.
- Não tinha opção, era destino.
- Bobagem! À merda com o destino. Destino é só conversa. Se amar era brinquedo, que pulasse a infância e fosses direto pra adolescência da qual nunca saiu.
- Se falas de infância é pela pureza de meu sentimento. Acreditei em histórias com finais felizes!
- E que final que é feliz? Feliz não é o infinito?
- Pois eu quero recomeço. Fim e recomeço.
- Pois que morra e nasça daqui a um milênio.
- Ainda me esperarás?
- Cínico!
- Sem rancor, misericórdia!
- Que há de ter misericórdia uma outra infeliz.
- E como termina?
- Do jeito que começa: com um desejo.
- Desejas que vá ou que fique?
- Desejo paz.
- Paz não terá nem com distância nem proximidade.
- Se desejo o indesejável que se cumpra o meu destino.
- Não mandastes o destino à merda?
- E onde mais estamos?
- Me diga: e como termina?
- Como acaba: um ponto final.
__________

Não há remissão
nem salvação para nós, amor
não há, não há
eu acabo de descobrir e desmorono agora
é só dor e só imperfeição, agora
é desespero perfeito e puro
o diabo ri dos nossos tropeços.
___________

Eu me canso de mim mesmo
e sei
que saber não é nada
de nada adianta e para o nada caminha.
O amor era impuro e
de fantasia perdurou e matou.
Eu desconstruo as linhas mas
as palavras são as mesmas de anos atrás.
O sentimento é o mesmo que havia
há dois milênios:
desarmonia e impiedade?
O que eu sinto é um punhado de terra,
jogado para o ar, virando poeira,
um vendaval de planos arquitetados
e mentiras criadas para dar sentido à vida.
Que caminho e que verdade?
Que ponto de honestidade?
Eu não duvido do poder
só desconfio do merecimento.
É piada do Deus?
É teatro do Mal?
É história de redenção?
É desgraça para servir como exemplo?
Não é meu esse caderno?
O Senhor não é meu pai?
Eu não quero me arrepender ou me queixar ou perceber o erro.

4 comentários:

Beto Canales disse...

plac, plac, plac...

De pé.

Vâmvú disse...

Vou fazer coro ao nosso amigo Beto...
plac, plac, plac...
E de pé também.
Muito bom Felipe. Intenso. Gosto disso... muito.
Um 2009 maravilhoso pra vc!
Abração

Vâmvú disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
felipe_favilla disse...

gostei do primeiro e do terceiro.
aliás o primeiro ta super excelente. abraço!