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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A solidão amparada

----------- como definir o que é essencial? Como controlar, comedir o desejo de atingir o inalcançável? Eu falo de sonhos e angústia. Das coisas que estão longe, da inadequação e da invisibilidade de ser.
Uma ilusão que se prolonga na permanência de uma fé intermitente – tudo é intermitente: o próprio tempo e o amor na condição do Cristo - mesmo o amor é intermitente e não deveria. E a lucidez.
É uma lucidez que se conforma em não ser nada. Um engano.
O sentido é a busca da calma e a calma também é incerta. Se não faz sentido e se sente é tão ruim como parece? Eu falo de aflições, redenções e coisas já vistas. Eu poderia sonhar com o insustentável? Eu poderia me sustentar das estruturas condenadas? E dessa coexistência ainda ter o céu?
A etimologia do entusiasmo deve ser constante. O poder da palavra ouvida e íntima, sentida como instrumento de comunhão entre o divino e o resto.
Eu esperava exatamente essas palavras, porque eu – como ser – sou mesmo muito previsível.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Vinte e nove

- Oi.
- Quem é?
- Eu.
- E aí?
- Olha, antes que você se assuste: pode abrir o portão e apertar a minha mão. Eu só vim desejar um bom aniversário. Um bom ano e muita felicidade.
- Jura? Não tem nenhum cigarro aí na tua mão? Não veio repetir aquelas coisas todas? Que você me ama, mesmo não devendo e etc.?
- Não. Não vim, não.
- Por que?
- Por que como assim?
- Assim o quê? Nada, sei lá. Espera aí.
- Beleza.
- E aí?
- E aí é isso. Eu tentei ligar mas o número não é mais o mesmo, eu acho. Aí eu pensei: é vinte e nove, o ano acabou, Deus! Vamos acabar tudo direito, então.
- E aí?
- Aí eu queria me desculpar por tudo, por qualquer coisa – mais uma vez – e desejar saúde.
- Só?
- Não. Saúde, principalmente.
Silêncio.
- E o que mais?
- Boa sorte. Dinheiro, essas coisas.
- Me deseja uma namorada! Tô precisando de uma.
- E uma namorada.
- Ah, valeu.
- De nada.
Silêncio.
- Tudo bem?
- Tranqüilo. E aí, o que tú tá fazendo? Trabalhando, estudando?
- Muito. Tudo isso aí. E você?
- Assistindo TV, engordando. Sempre. Mas me fala uma coisa: que tava rolando naquele dia lá do cigarro?
- Por que você acha que era eu?
- Ah, fala sério, porra. Tú tava na minha porta, debaixo de chuva, um cigarro na mão (um de vários, com certeza). Quem mais?
- Podia ser qualquer pessoa.
- Não podia, não.
- Não estava rolando nada. Uma despedida. Um ponto final.
- E isso aqui é o quê?
Levantar de ombros.
- Significa o quê?
- Sabe o engraçado?
- Hum?
- Eu nem sei fumar. Todo mundo diz.
- Tú devia parar de vez, então.
- Já parei.
- Bom.
- É.
Silêncio.
- Era isso.
- Falou, então. A gente se...
- Não.
- Como é que tú sabe que não? Não é tú quem decide.
- Olha: você espera mesmo que alguém tome as decisões por você?
- Como assim?
- Não é uma interrogação. Sabe qual é a grande verdade da qual ninguém se dá conta? No fundo, tudo é ridiculamente muito simples. Mas sei lá: forças ocultas, falta de Deus ou uma tremenda venda nos olhos, a gente deixa passar e justifica dizendo que era complicado. Há! Complicado. Fica com Deus, irmão. Se cuida.
Dois dedos. Mão no coração.
ilustração: cigarettes.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Desajeitado

A lucidez o visitava só raramente.
No restante do tempo era uma clareza falsa e festa -
um desperdício involuntário de sua vida tão jovem.
Companhia de solidão,
almoço e jantar de suas dores
não era bom como podia
nem ruim o suficiente para ser definitivamente feliz.
Só um sopro e estabacaria no chão.

A letra jota

e a montanha insiste em ficar lá, parada
a montanha insiste em ficar lá
para lá
parada,
parada.
para lá, arnaldo antunes.
ilustração: rondando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um

Eu vi um sorriso tingido de nuvem escura e um grunhido me soar familiar e quase inaudível.
Se o sol deixar de brilhar por um instante, como num sonho apocalíptico e medonho, para onde você corre, amor?
O sentimento é todo tão confuso – é como se um grito seco e estridente, de pavor e medo, soterrasse qualquer tentativa de conversas civilizadas, fazendo com que as construções de alvenaria ruíssem, ignorando o propósito do trabalho. É como se falar ou escrever ou outra tentativa qualquer de comunicação soasse falida sempre.
A sombra de tudo o que foi vivido disseca o presente duvidoso e pobre de sentido. Não há certeza e não há loucura, não há motivo.
Pessoas cruzam um caminho torto e de observá-las fez-se um muro no observador.
O observador tem canelas magras e fome da vida que quer.
O observador bebe café sozinho e compra sozinho e sozinho ri não sabe de quê.
Brinca de viver, brinca de afagar mas sabe que o melhor do amor é perder a razão – e para quê tê-la?

Definitivamente, talvez

'À minha querida filha April,
O coração humano tem tesouros ocultos
no segredo mantido, no silêncio selado
os pensamentos, as esperanças, os sonhos,
os prazeres cujo charme se romperia, se revelado'.
Do seu pai que te ama.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O sapo

O menino entendia pouco da língua, o que o amedrontava.
O menino entendia pouco da vida e arremessava-se.
ilustração: the frog.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Melodia

uma canção entoada por um amador
cantada
à voz vacilante
tremida
desconfia do apuro do ouvido.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

No escuro

----------- Eu levantei e o escuro era o eu palpável.
Era a única coisa que eu conhecia: um escuro atordoante e libertador.
Era como se eu finalmente cedesse ao meu não saber, às dúvidas, aos egoísmos.
Que luz?
E era como se perdido eu me encontrasse e como se desnorteado eu me pusesse na vida.
Da intimidade do escuro eu trouxe uma sensação de afago.

sábado, 8 de novembro de 2008

05:55

Estou buscando, estou tentando encontrar.
É um erro?
Melhor seria descartar o que foi vivido e desaperceber-se?
E desapercebendo ressucitar?
Eu não toco ninguém; eu canso.
É um cansaço doído e permanente, uma grande onda que só incomoda, não destrói.
Uma tsunami tímida.
É como se às cinco e cinquenta e cinco o despertador soasse e eu me levantasse sem despertar.
E então sonhasse, e então quisesse e comesse: sem despertar.
E sem despertar eu novamente dormisse e de novo quisesse.
Quisesse dinheiro. Ou amor. Ou quisesse não saber.
Toda dor é um motor.
Um motor potente - ainda que sem pressa.
Toda dor é uma
q
u
e
d
a.
Uma queda igualmente potente.
É quando Deus nos larga por um instante breve e logo nos toma de volta, embora a sensação seja de constante desamparo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Das cinzas

Eu vou superar.
Levarei tempo, ainda, mas tempo é divino.
Renascido, haverá a dúvida: deverei olhar para tudo como se fosse a primeira ou a última vez?

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Notas sobre o trivial

Pergunto-me coisas que não sei responder.
Gostaria, mas não sei.
[E para quê respostas? Que farei com elas?]
O mundo parece-me absurdo e patético, estou confuso e às vezes sinto-me sufocado (é uma questão física também).
O meu dia é curto, as horas passam depressa e o tempo devagar.
É o apocalipse, diz a bíblia sagrada.
O fim do mundo.
Onde fica?
Alguém me disse que no fim tudo dá certo e eu acreditei.
É um desespero antigo e permanente,
um desconcerto, um espanto, uma não-definição.
Eu me torno pior?
E essas interrogações, o que esperam?
É uma grandeza desmedida e perigosa à medida que se torna a menor quantidade de uma coisa.
Uma desestrutura, um rompimento com algo que fui e já não sou.
Ou que gostaria.
Uma esfinge sem segredo?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Coma alcoólico

É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Fragmentos

A verdade é previsível, ordinariamente previsível. A verdade nos despersonaliza?
Eu posso supor uma tempestade que não amedronta e antever intimidades cataclísmicas.
Essa paixão é fome? Ou é gula?
É céu? Ou selva?
É esgotamento - esse prelúdio é aflito e morno e a constatação do estado medíocre me aterroriza.
O passado não nos revela, o que nos revela é o presente.
Ilustração: paisagem tempestuosa, rembrandt.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Que importa o sentido?

Eu é que estava iluminado e desconhecendo essa luz sentia-me diferente?
Eu quis voltar mas resisti: regredir é o pecado maior e mesmo quando há retorno é um retorno que acompanha a evolução.
(Depois as pistas molhadas. Os carros e as janelas molhadas da chuva que me desperta e desnorteia)
Eu caminho num caminho novo e difícil - é sempre difícil fazer a escolha certa.
Resistiremos, estaremos sãos quando acabar a caminhada trêmula, de pernas magras e cansadas? Não sei, definitivamente.
O que vejo e enfim compreendo é que não há de haver obrigações com nada a não ser comigo e com minha satisfação - mas do que depende a minha satisfação? Do bem-estar alheio, do trabalho bem feito? De não deixar e não sofrer marcas demais?
Demais é uma palavra triste e arrastada. É letal.
Viver é letal, e de não suportar o peso a palavra é morta.
E em tudo o que não há sentido, há algo de honestidade tão ampla que é desconcertante concebê-la simples, cabível na rotina do existir sem viver.
E, verdadeiramente, o 'que importa o sentido, se tudo vibra'?
Ilustração: the bed, maria joão franco.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Achado do momento em que procuro

Descansa a vontade
Descompasso incessante
Lapsos a perseguir meu ventre
Brandas chamas - o corpo clemente.
Floresço flor de laranjeira
Displicente e calma
Envelheço em rugas sábias
Assobios intempéries.
(...)
Já não sou Maria
Tão pouco imaculada.
kauana r., de manteiga de kakau.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Primeiras impressões de um vôo raso e desajeitado

Do outro lado eu ainda não me percebo.
Não sei como é ser feliz - estou descobrindo.
Estou des-cobrindo as pessoas e a cara da vida e do mundo real, aquele que pulsa em batidas violentas e sem ritmo.
Eu tenho que ordenar tudo.
Eu que me criei na desordem, na insanidade de um mundo só meu e fundo.
Eu, que queria ter crescido com sotaque.

Aviso

É melhor ser alegre que ser triste
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração
mas para fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não.
baden powell e vinícius de moraes, samba da bênção.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Retrato

Demora tanto, demora tanto pra crescer
Pra depois, de uma hora pra outra morrer
Tem que mamar, tem que comer e beber
Deixar vir e ir sofrimento e prazer
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Um cara que anda tem que chegar em algum lugar
Um cara que trabalha, trabalha, trabalha, deve se cansar
O cara estuda tanto e ainda tem tanto pra aprender
Passa o tempo e fica mais fácil esquecer
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Se despede da sua dor
Diz adeus à sua alegria
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
arnaldo antunes e paulo miklos, fim do dia.

Real life

Need sleep.