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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A letra jota

e a montanha insiste em ficar lá, parada
a montanha insiste em ficar lá
para lá
parada,
parada.
para lá, arnaldo antunes.
ilustração: rondando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Definitivamente, talvez

'À minha querida filha April,
O coração humano tem tesouros ocultos
no segredo mantido, no silêncio selado
os pensamentos, as esperanças, os sonhos,
os prazeres cujo charme se romperia, se revelado'.
Do seu pai que te ama.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

eu não sou eu nem sou o outro
sou qualquer coisa de intermédio
pilar da ponte de tédio
que vai de mim para o outro.
mário de sá carneiro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O que me revela

Daqui desse momento
do meu olhar pra fora
o mundo é só miragem
A sombra do futuro
a sobra do passado
a sombra é uma paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
em nossa recompensa?
Quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado só de quem me interessa
Às vezes é um instante
a tarde faz silêncio
o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
de um tempo que ainda não passou
Por trás do seu sossego, atraso o meu relógio
acalmo a minha pressa
Me dá sua palavra
sussure em meu ouvido
só o que me interessa
A lógica do vento
o caos do pensamento
a paz na solidão
A órbita do tempo
a pausa do retrato
a voz da intuição
A curva do universo
a fórmula do acaso
o alcance da promessa
O salto do desejo
o agora e o infinito
Só o que me interessa.
é o que me interessa, lenine e dudu falcão.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Que fazes aqui?


- Que fazes aqui?
- Descobrindo, e tu?
- Indo. O que queres descobrir?
- O que ainda não descobri. Onde queres chegar?
- Onde ainda não fui.
- Onde ainda não foi?
- Onde ainda não descobri.
- Então estás descobrindo, não indo.
- Só posso descobrir indo.
- Não é porque está indo que vai descobrir.
- Então é por quê?
- Podias estar indo para onde já descobristes.
- E tu poderia descobrir o que já descobristes.
- Já descobri o que já descobri.
- E eu já fui para onde já fui.
- Poderias voltar.
- Poderias redescobrir, não descobristes tudo.
- E tu não fostes para todos os lugares de onde viestes.
- É verdade.
- E o que ainda não descobrimos?
- Muito. O que já descobrimos, por exemplo.
- Não há nada para descobrir pela primeira vez?
- Há. O que fazemos aqui, por exemplo.
- Estamos aqui para descobrir.
- E por que temos que descobrir?
- Ainda não descobri, mas pretendo.
- Descobrirás outra coisa.
- O quê?
- Não sei, ainda não descobristes.
- Como sabe que vou descobrir o que nem sabe o que é?
- Se não sei o que é, é porque ainda não descobristes.
- Como pode ‘ser’ se nem sabe o que ‘é’?
- Não sei quem és, não significa que não és.
- E se ainda não tiver me descoberto?
- Então não és.
- Se não sou, não preciso saber o que faço aqui.
- Tem razão, mas já te descobristes.
- Estás certo. Se eu descobrisse antes, não me descobriria.
- E agora, o que fará?
- Sair daqui, e tu?
- Vou contigo, para onde vais?
- Preciso descobrir isso também.
- Como podes ir se nem sabe para onde vai?
- Então vamos ficar aqui.
- E por quê?
- Para descobrir o que fazemos aqui.
- Sim. Somos dois, será fácil descobrir.
tiago júlio, descoberta, de vago.
ilustrações: felipe lima.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Por onde?

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento,
terá os pés na pedra
ou vento no cabelo?
A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento,
dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento,
terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento,
por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?
adriana calcanhotto, seu pensamento.
ilustração: um beijo de saudade, maria joão franco.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Eu queria ser feliz

para quem quer se soltar invento o cais
invento mais que a solidão me dá
invento lua nova a clarear
invento o amor e sei a dor de me lançar
eu queria ser feliz
invento o mar
invento em mim o sonhador
para quem quer me seguir eu quero mais
tenho o caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar.
milton nascimento e ronaldo bastos, cais.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Questions of small account

Quanto vale o show?
Quanto vale o amor?
Quanto vale então fazer das tripas coração?
Quanto vale o som?
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção?
trecho de la plata, jota quest.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

[Essm]

I'm fine without you.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Achado do momento em que procuro

Descansa a vontade
Descompasso incessante
Lapsos a perseguir meu ventre
Brandas chamas - o corpo clemente.
Floresço flor de laranjeira
Displicente e calma
Envelheço em rugas sábias
Assobios intempéries.
(...)
Já não sou Maria
Tão pouco imaculada.
kauana r., de manteiga de kakau.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aviso

É melhor ser alegre que ser triste
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração
mas para fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não.
baden powell e vinícius de moraes, samba da bênção.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Retrato

Demora tanto, demora tanto pra crescer
Pra depois, de uma hora pra outra morrer
Tem que mamar, tem que comer e beber
Deixar vir e ir sofrimento e prazer
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Um cara que anda tem que chegar em algum lugar
Um cara que trabalha, trabalha, trabalha, deve se cansar
O cara estuda tanto e ainda tem tanto pra aprender
Passa o tempo e fica mais fácil esquecer
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
Se despede da sua dor
Diz adeus à sua alegria
Não há o que lamentar
Quando chega o fim do dia
arnaldo antunes e paulo miklos, fim do dia.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A oração

nú de joelhos, antoine watteau
Meu Deus, me dê a coragem
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços meu pecado de pensar.
clarice lispector

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Trying hard


Eu tô tentando largar o cigarro
eu tô tentando remar meu barco
eu tô tentando armar um barraco
eu tô tentando não cair no buraco
eu tô tentando tirar o atraso
eu tô tentando te dar um abraço
eu tô penando pra driblar o fracasso
eu tô brigando pra enfrentar o cangaço
eu tô tentando ser brasileiro
eu tô tentando saber o que é isso
eu tô tentando ficar com Deus
eu tô tentando que Ele fique comigo
eu tô fincando meus pés no chão
eu tô tentando ganhar um milhão
eu tô tentando ter mais culhão
eu tô treinando pra ser campeão
eu tô tentando ser feliz
eu tô tentando te fazer feliz
eu tô tentando entrar em forma
eu tô tentando enganar a morte
eu tô tentando ser atuante
eu tô tentando ser boa amante
eu tô tentando criar meu filho
eu tô tentando fazer meu filme
eu tô chutando pra marcar um gol
eu tô vivendo de rock 'n roll.
george israel e paula toller, eu tô tentando.
Ilustração: cabisbaixo, joão pereira de matos.

sábado, 13 de setembro de 2008

Transcendental


Eu não sou somente a favor da Guerra do Vietnã, mas a favor de todas as guerras. A guerra é uma empresa saudável, gloriosa. Faz com que os homens sonhem, traz à tona paixões recalcadas, é uma época de esperanças e grandes ilusões. Com isso, com sua intensidade, faz com que a arte, a ciência e as idéias se desenvolvam. Do ponto de vista erótico, as guerras desencadeiam impulsos reprimidos e estimulam a sensibilidade das pessoas. E veja: além de tudo, se houvesse paz o tempo inteiro, nós seríamos vítimas de uma mortal monotonia.
Salvador Dalí, pintor espanhol ao responder a pergunta "Atualmente, acho que você é a única pessoa do mundo a favor da Guerra do Vietnã, não?" feita pela revista veja, em 1971.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Porta aberta

Hoje acordei sem lembrar
Se vivi ou se sonhei
Você aqui nesse lugar
Que eu ainda não deixei
Vou ficar?
Quanto tempo vou esperar?
E eu não sei o que vou fazer, não
Nem precisei revelar
Sua foto não tirei
Como tirei pra dançar
Alguém que avistei
Tempo atrás
Esse tempo está lá trás
E eu não tenho mais o que fazer, não
Eu ainda gosto dela
Mas ela já não gosta tanto assim
A porta ainda está aberta
Mas da janela já não entra luz
E eu ainda penso nela
Mas ela já não pensa mais em mim, não
Ainda vejo o luar
Refletido na areia
Aqui na frente desse mar
Sua boca eu beijei
Quis ficar
Só com ela eu quis ficar
E agora ela me deixou
Eu ainda gosto dela
Mas ela já não gosta tanto assim
A porta ainda está aberta
Mas da janela já não entra luz
E eu ainda penso nela
Mas ela já não pensa mais em mim
Eu vou deixar a porta aberta
Pra que ela entre e traga a sua luz
samuel rosa e nando reis, ainda gosto dela.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Cafés e cigarros

(...)

Vou esquentar o meu frio com um café,
Depois tomar um trago da tua fé.
Sentir calor, nem que seja um cigarro.

Vou esquecer toda essa necessidade.
Joguei ao vento a palavra "eternidade"
E entreguei "paixão" ao seu destino: o escarro.
cinthia lima, só mais um coração seco de 20 anos; publicado em casa dos corações inquietos, de felipe favilla (setembro/2008).

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Nostalgia

Um brinde à juventude;
àqueles que viajam,
aos que ardem.
Esses que gostam do frio
pois da boca sai fumaça!
Fazendo evocar o tempo
em que aqui dentro
havia algo que não fosse pecado.
Felipe Favilla, viva, viva! (julho/ 2008)

sábado, 21 de junho de 2008

Não entendo

"Entender é a prova do erro".
Clarice Lispector, O Ovo e a Galinha.

sábado, 14 de junho de 2008

Drummond

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta, que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade".
Carlos Drummond de Andrade, poeta.