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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A casa decadente

Na boca dele, o sabor amargo da derrota da infância – a nostalgia inquietante e vasta do nada.
Do zunir de uma palavra ordinária o ouvido sugava a declaração de amor que não existia.
Dos passos já dados, uma verdade inteira do dia de hoje.
Ou de ontem, na mesa do café.
Um vazio completo, a solidão amparada, a cama de lençóis revirados e os olhos muito abertos: conquistas da razão aturdida, amigos em corda bamba e falta.
Ele morria de uma morte rápida e convincente.
Ela morta e não sabia.
A casa decadente – sobre os móveis, a poeira do universo de amar espalhada em fragmentos microscópicos.
As fotos envelhecidas – recordações de andar exausta.
A louça suja;
Os corpos sobre a cama.
E a razão que faltava
[pedia para o poema existir? Para a inocência voltar?]
Um desejo de saúde – para rumar à casa nova – e só: as pernas devem ser resistentes.
Originalmente publicado em 3AM Magazine em 08 de fevereiro de 2009.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Balloons


A tinta no muro rascunha uma vida:
uma donzela que poderíamos crer decadente
não fosse a loucura seu maior charme.
E as confusões todas que ela cria fazem da sua existência
o estímulo para um mundo mais bonito
para corações sadios e sorrisos de amplidão.
Mas da tristeza que ela guarda no peito, que fazer?
Para o entusiasmo permanecer, a saúde que pede
e um amor que se importa com o trivial:
aquilo que diariamente deixamos para depois quando em meio ao nosso vazio, achamos o ar para encher a bexiga.
E as palavras? Continuam a fazer sentido apenas para mim, acho.
E Clarice: Faz tempo que eu não uso exclamações!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Postal para Clarice

Não tenho o que suspeitar, querida,
se duvidei de tudo – como todos, aliás:
das febres, dos rastros, da poesia rasa.
Meu coração foi o fruto podre das dores de existir.
Existi, só?
Ou fui pleno em meus impulsos exageradamente inteiros e incolores?
Sem cor não há alegria ou cor é só disfarce?
Eu comi dos alimentos mais primordiais e bebi das águas que tinham gosto, sim.
E Clarice, se você soubesse da estranheza de amar como eu amei, dos sentidos invertidos.
Mesmo suspeito, eu amei.
E agora, sem suspeita, que certeza?
Aí onde está, qual a certeza? Qual é a busca?
Eu estou buscando Clarice, pois esperar não serve mais.
ilustração: whats eating Clarice?

A solidão amparada

----------- como definir o que é essencial? Como controlar, comedir o desejo de atingir o inalcançável? Eu falo de sonhos e angústia. Das coisas que estão longe, da inadequação e da invisibilidade de ser.
Uma ilusão que se prolonga na permanência de uma fé intermitente – tudo é intermitente: o próprio tempo e o amor na condição do Cristo - mesmo o amor é intermitente e não deveria. E a lucidez.
É uma lucidez que se conforma em não ser nada. Um engano.
O sentido é a busca da calma e a calma também é incerta. Se não faz sentido e se sente é tão ruim como parece? Eu falo de aflições, redenções e coisas já vistas. Eu poderia sonhar com o insustentável? Eu poderia me sustentar das estruturas condenadas? E dessa coexistência ainda ter o céu?
A etimologia do entusiasmo deve ser constante. O poder da palavra ouvida e íntima, sentida como instrumento de comunhão entre o divino e o resto.
Eu esperava exatamente essas palavras, porque eu – como ser – sou mesmo muito previsível.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Vinte e nove

- Oi.
- Quem é?
- Eu.
- E aí?
- Olha, antes que você se assuste: pode abrir o portão e apertar a minha mão. Eu só vim desejar um bom aniversário. Um bom ano e muita felicidade.
- Jura? Não tem nenhum cigarro aí na tua mão? Não veio repetir aquelas coisas todas? Que você me ama, mesmo não devendo e etc.?
- Não. Não vim, não.
- Por que?
- Por que como assim?
- Assim o quê? Nada, sei lá. Espera aí.
- Beleza.
- E aí?
- E aí é isso. Eu tentei ligar mas o número não é mais o mesmo, eu acho. Aí eu pensei: é vinte e nove, o ano acabou, Deus! Vamos acabar tudo direito, então.
- E aí?
- Aí eu queria me desculpar por tudo, por qualquer coisa – mais uma vez – e desejar saúde.
- Só?
- Não. Saúde, principalmente.
Silêncio.
- E o que mais?
- Boa sorte. Dinheiro, essas coisas.
- Me deseja uma namorada! Tô precisando de uma.
- E uma namorada.
- Ah, valeu.
- De nada.
Silêncio.
- Tudo bem?
- Tranqüilo. E aí, o que tú tá fazendo? Trabalhando, estudando?
- Muito. Tudo isso aí. E você?
- Assistindo TV, engordando. Sempre. Mas me fala uma coisa: que tava rolando naquele dia lá do cigarro?
- Por que você acha que era eu?
- Ah, fala sério, porra. Tú tava na minha porta, debaixo de chuva, um cigarro na mão (um de vários, com certeza). Quem mais?
- Podia ser qualquer pessoa.
- Não podia, não.
- Não estava rolando nada. Uma despedida. Um ponto final.
- E isso aqui é o quê?
Levantar de ombros.
- Significa o quê?
- Sabe o engraçado?
- Hum?
- Eu nem sei fumar. Todo mundo diz.
- Tú devia parar de vez, então.
- Já parei.
- Bom.
- É.
Silêncio.
- Era isso.
- Falou, então. A gente se...
- Não.
- Como é que tú sabe que não? Não é tú quem decide.
- Olha: você espera mesmo que alguém tome as decisões por você?
- Como assim?
- Não é uma interrogação. Sabe qual é a grande verdade da qual ninguém se dá conta? No fundo, tudo é ridiculamente muito simples. Mas sei lá: forças ocultas, falta de Deus ou uma tremenda venda nos olhos, a gente deixa passar e justifica dizendo que era complicado. Há! Complicado. Fica com Deus, irmão. Se cuida.
Dois dedos. Mão no coração.
ilustração: cigarettes.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A letra jota

e a montanha insiste em ficar lá, parada
a montanha insiste em ficar lá
para lá
parada,
parada.
para lá, arnaldo antunes.
ilustração: rondando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Definitivamente, talvez

'À minha querida filha April,
O coração humano tem tesouros ocultos
no segredo mantido, no silêncio selado
os pensamentos, as esperanças, os sonhos,
os prazeres cujo charme se romperia, se revelado'.
Do seu pai que te ama.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Visita

'E buscavam compreender o que viviam, confusos por saber pouco e sentir muito'.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O sapo

O menino entendia pouco da língua, o que o amedrontava.
O menino entendia pouco da vida e arremessava-se.
ilustração: the frog.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Feliz ano novo

Ao menino que bebe e aproveita de jovens corpos como o seu, uma vida imensa e uma calmaria.
À menina que não sabemos se o 'estou bem' que ela faz ecoar aos quatro cantos é verdadeiro ou esconde uma agonia, a alegria inconstante que faz bem e remedia.
À jovem mãe com ânsia de palco e intensidade apropriada, uma família com saúde e o reconhecimento devido.
À erudita de coração inconsolável, um amor sadio e vida de pacíficas histórias.
Ao jovem desmedido, a permanência de suas virtudes.

domingo, 16 de novembro de 2008

Nudez

'Eu não me queixo'.
Da solidão por entre os arranha-céus da cidade de São Paulo ou nas pistas largas e monumentos de concreto de Brasília.
Dos amores doídos e dos peitos escancarados jorrando o sangue que era do meu amor.
Eu não me queixo da falta de amigos ou da falta de um pai, de irmãos ou da falta plena de tudo - o vazio que ora preenche, ora assola.
Nem do trabalho ruim, da fome de paixão e de prazer.
Tu não deves queixar-se se achas que já não acreditas na felicidade da mesma forma que acreditavas aos doze anos de idade - porque aos doze anos todas as realizações são possíveis e não concebe-se de forma alguma a idéia de que obstáculos não possam ser superados.
É a dádiva da infância.
Eu não sei mais o que eu sabia antes.
E nem reclamo.
Por que que descoberta poderei eu fazer, depois de saber do sabor dos teus lábios levemente avermelhados e meus [posse].
Depois de descobrir e descobrir e desnudar tantas pieguices, e despir-me em palavras cada dia mais pesadas, que descoberta?
Só me resta essa nudez , enquanto tu ainda estás de roupa.
Eu não poderia parar e sentar e decidir e mudar e encarar todas as faces robustas e feias das coisas que não queremos.
Porque
o não querer é perigoso.
Eu não posso encarar o perigo se não tenho companhia, só lembranças ameaçadas por sortes e boas coisas.
E não consigo entender [me].
E as palavras? Onde está a leitura que deveriam fazer?
Eu sinto.
ilustração: traço nú.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

No recreio

Eu excursiono pela vida hoje com o olhar atento de quem vê e vive tudo como se fosse o último dia.
Como quem tem para viver apenas os quinze minutos de recreio entre uma aula e outra e nesse intervalo, instalado entre a rotina robótica de nossa existência, nós dançamos feito protótipos de amores infinitos e leais, querendo pra sempre o bom humor das caretas e dos timbres de voz.
ilustração: zoológico, rocío alejandro.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Esperando Clarice

Eu sou um menino ainda, moça.
Um menino que sente falta dos amigos todos já maduros,
seguindo com suas vidas tão soltas e tão boas.

Eu sou um menino caído num poço raso,
que sente falta de Deus e da época em que bastava a presença de um amor encardido.

Eu sinto falta de um bom prato de comida,
da geladeira cheia,
de me vestir com as peças de roupa que eu deixo penduradas nos cabides do meu armário sem portas.

Eu estou esperando, Clarice.
Esperando que você venha e me leve correndo para que façamos aquela viagem com que nós dois tanto sonhamos:
eu aqui e você aí, onde quer que você ainda esteja.

Por onde?

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento,
terá os pés na pedra
ou vento no cabelo?
A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento,
dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento,
terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento,
por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?
adriana calcanhotto, seu pensamento.
ilustração: um beijo de saudade, maria joão franco.

No escuro

----------- Eu levantei e o escuro era o eu palpável.
Era a única coisa que eu conhecia: um escuro atordoante e libertador.
Era como se eu finalmente cedesse ao meu não saber, às dúvidas, aos egoísmos.
Que luz?
E era como se perdido eu me encontrasse e como se desnorteado eu me pusesse na vida.
Da intimidade do escuro eu trouxe uma sensação de afago.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pingos


Chuva
chove
pinga
chora
dorme.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Calado

À porta de mim, um eu quieto.
Mudo e estático, recordo-me
que eu fui o peito nú que abrigou sua cabeça pesada e confusa.
[Os sorrisos eram tristes à medida da tua distância]
Eu não me cansava e não tinha fome
porque nos alimentávamos das substâncias intrínsecas ao nosso contato.
Era um furacão que não devastava,
uma dor que não doía e era bom sentí-la.
Era bom fruir da angústia que não dilacerava,
do tapa que não machucava.
Hoje há um eu calado,
perplexo.
De tão imóvel, quase morto;
de uma morte sem tragédia ou arrebatamento.
Irei sobreviver ao tempo de um segundo?
Eu vou superar.
Levarei tempo, ainda, mas tempo é divino.
Renascido, haverá a dúvida:
deverei olhar para tudo como se fosse a primeira ou a última vez?
ilustração: a little quiet, lost and gray.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Questions of small account

Quanto vale o show?
Quanto vale o amor?
Quanto vale então fazer das tripas coração?
Quanto vale o som?
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa e um pouquinho de atenção?
trecho de la plata, jota quest.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Maior, maior, maior

----------- É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares e que mesmo quem carrega um sorriso de alegria desencontrada guarda em algum canto uma agonia em tons de cinza muito escuro.
É que eu descubro que na vida é oito ou oitenta, ou toca ou não toca, não se vive mais ou menos.
[É que eu descobri] que a loucura é a carta de alforria e tenho medo de que a verdade seja diferente. A verdade é sempre uma boa alternativa?
Eu não me domino.
Me duvido e desconheço-me de forma tão plena que chego a compreender-me de maneira absoluta.
É uma auto-indulgência, um perdão.
Eu me perdôo por compreender que a vida é maior, maior, maior.
Que pode e deve ser maior.
Eu posso amar mais.
Comer mais,
dançar mais,
dormir mais,
conversar mais.
Eu posso desejar mais,
escancarar mais.
E posso também querer ser menos,
porque menos não me torna menor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Coma alcoólico

É que percebo que da vida só se bebe em doses cavalares.