segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 7 de setembro de 2008
O espelho
Era um dia oco e pavoroso como todos os outros. Anna estava com os botões do jeans preto abertos e havia livrado-se da regata verde-musgo. Sentada em uma cadeira acolchoada descansava seus braços nos braços da cadeira azul-índigo. Tão oca (quanto todos os outros dias ocos e pavorosos), fixava os olhos pesados na cena vulgar de dois corpos em estados epiléticos, comendo-se, sujando-se, lambuzando-se numa espécie de catarse sexual catastrófica. Aquilo - aquele ato sem paixão ou transcendência - a enojava. E a repulsa a deixava estranhamente excitada.
Foi o ruído da excitação imprópria que trouxe o ímpeto ocasional de, num instante, tirar do gancho o telefone e discar para o número que ela ouvira apenas uma vez, há duas semanas. Sem detalhes, deixou nome - fictício - e idade. Foi o suficiente para atrair a atenção de boa parte dos participantes do chat de voz. Conversou com alguns rapazes até encontrar Luciano, que descrevia-se como "um coroa com uma disposição invejável para trepar com meninas mais novas".
dois
- Curte um coroa, minha linda?
- Prefiro.
- Ah, é? Que delícia... me fala como você é, fala?
- Claro. Pele clara, 1,72 metro, 62 kg, cabelos curtos, poucos pêlos...
- Maravilha! E o que é que essa preciosidade faz por aqui, hum?
- A preciosidade aqui precisa de bebida e uma boa foda.
três
Ele riu cretinamente como ela imaginou que ele riria. Marcaram encontro para dali a meia hora, tempo suficiente para que Anna chegasse até o local onde Luciano iria buscá-la. Pontual, ele encostou o carro num ponto de ônibus vazio e abriu um sorriso que revelou o amarelado dos dentes gastos. Anna observou-o discretamente enquanto ele punha o carro novamente em movimento. Luciano era um senhor (já avô, confidenciou mais tarde) nada atraente, a princípio. Usava uma camisa de longas mangas e uma calça leve de cor marrom.
Luciano enobreceu a beleza inusual e forte de Anna e educadamente deu-a a liberdade de desistir do encontro ressaltando, em outras palavras, que se a garota não se sentisse "à vontade" com a decadência de seu corpo envelhecido e flácido, poderia pedir que ele a deixasse em qualquer ponto da cidade. "Jogo aberto", disse ele. "Leve-me até a sua casa", respondeu ela. Luciano riu e deslizou a mão direita por toda a extensão da coxa esquerda da jovem. Anna então percebeu que o amarelo dos dentes de seu companheiro era proporcional ao amarelo de sua própria vida. Um amarelo opaco e degradante.
quatro
Chegaram ao apartamento em poucos minutos. A decoração do lugar alternava o clássico e o sofisticado, com quadros e aquários compondo o ambiente de pouca luz. Logo rumaram ao quarto e sem mais perguntas ou qualquer outra coisa a ser dita, Luciano avançou seus lábios finos e murchos em direção à boca de Anna, que correspondeu sem entusiasmo. Ele dirigiu-se até o abajur ao lado da cama e acendendo a luz despiu-se por completo, exibindo a aparência real de um homem em seus cinquenta e oito anos. Anna fez o mesmo e ambos reiniciaram os beijos secos e insípidos. Deitaram-se sobre os edredons escuros e macios explorando sem sutilezas o desconhecido e o que causava saudade.
Anna sentiu-se desrespeitosamente tomada por um rascunho de prazer despertado enquanto Luciano sugava-lhe os seios. Entretanto, foi tão e somente de quatro - frente ao espelho ao lado da cama - enquanto era invadida por um corpo estranho, que Anna percebeu que o prazer era a violência e o feio. A aberração e o nojo como fato consumado.
cinco
Sentou-se, apoiando a base dos pés no carpete. Refletida, observou-se por um breve instante e não sabia descrever-se.
- Posso usar o seu banheiro? - quis saber, ao perceber Luciano de volta ao quarto.
- Claro.
- Se importa se eu me molhar um pouco?
- Vou pegar uma toalha.
Anna moraria sob a ducha quente mas saiu logo do banho. Luciano já estava vestido e ela fez o mesmo.
seis
Beijos, portas, escadas, carro e conversas agradáveis e ele a deixou no centro. Anna saiu do carro desejando as felicidades que verdadeiramente gostaria que Luciano alcançasse. Era uma boa pessoa, o velho. Talvez bom demais para ela, que sentia-se pobre, suja e infernal - exatamente como o centro da cidade forjada.
E estava viva, sentia-se viva como nunca. Pobre, suja, demoníaca e viva; enquanto esperava a redenção.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
O apocalipse
Ruas sem nomes, amores correndo de mãos dadas.
Mergulhos na água, nús, sob o sol.
Areia e promessas que nunca foram feitas.
Entulhos, velas.
Velocidade, asfalto, pés, vôo num céu claro. Branco: nas roupas e nos dentes. Cores, em todos os lugares.
Música, guitarras, órgãos, pianos, baixos, violões, baterias, flautas e vozes, todas as vozes juntas.
Almas esparramadas, saindo das bocas dos que cantam.
Infinito
Prédios, fontes espirrando água sem parar.
Homens cavalgando em nuvens, deitados em cavalos de pano.
Sorrisos sem tamanho, sorrisos enormes.
Pessoas rodopiando em meio aos carros, todos parados.
Crianças sobre capotas, cachorros flutuando, bumerangues.
Olhos se abrindo, ouvidos atentos, despertados.
Chinelos andando sozinhos pelas ruas.
Pãezinhos dançando sobre o balcão, roupas fugindo dos cabides.
Lágrimas, gritos.
Chuva subindo em direção ao céu.
Tsunamis e homens de prancha na mão.
Travesseiros espreguiçando-se, elefantes pulando corda, girafas de salto alto, marchando.
Melancias à disposição dos transeuntes, comidas em cada esquina.
Bicicletas exercitando-se sozinhas, máquinas fotográficas registrando o fim do mundo.
Alegrias (muitas) com a chegada de Deus e sua acolhida divina à nossa existência cheia de pecados outrora condenáveis e que não mais existiam.
Ninguém mais tinha problemas para dormir e à noite, Deus juntava-se a nós ao redor da fogueira e contava casos de outras épocas.
As crianças brincavam com leões e não tínhamos mais aversão a inseto algum.
E todos riam quando deitávamos no chão e o céu escuro se transformava em uma imensa tela, como as de cinema, e víamos as estrelas apresentarem espetáculos extraordinários, usufruindo de todas as manifestações da estética e da imaginação.
Os galos jogavam cartas e ninguém mais morria.
Os sonhos eram possíveis e falava-se apenas um idioma. As pessoas todas entendiam o que era dito.
As baleias nadavam no ar e as vacas faziam turismo nos mares com galões de oxigênio.
Não existiam os pesadelos (nem os despertadores). Nem impostos. Nem dinheiro.
Os animais (todos, com exceção das estrelas-do-mar, que eram mudas) falavam e tinham sempre bons conselhos a dar.
Éramos felizes, porque a tristeza tinha sido expulsa de nossos corações, que agora não se pareciam com punhos fechados mas com os desenhos típicos que aprendemos quando crianças.
E antes de se deitar Deus dizia-nos, sempre: "tenham uma boa noite, meus filhos". Víamos a grandeza de seus passos, gestos e palavras poderosas indo dormir, enquanto vagalumes o seguiam até a beirada da cama, onde estacionavam. E sempre havia o dia seguinte.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
O beijo
Foi lembrando dos pêlos, dos cabelos, da maciez do toque por detrás das folhas de papel (o toque), da voz, do andado, do sorriso que não conhecia a felicidade, da angústia daquele rapaz. Foi lembrando do boneco de biscuit, todo proporcional.
E de lembranças assim construiu uma casa; linda, que morou pra sempre em seu peito e que viu o passado chegar querendo colocar os pingos nos is, aceitando as complicações. Era o tempo que faltava e que veio da maneira como devia e queria. O tempo. Já nem era mais paixão, talvez nunca tenha sido. Era encanto, amor.
E talvez o amor não precisasse de um beijo. Talvez o amor só quisesse possibilidades. Todas elas.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Quando somos eternamente responsáveis pelo que cativamos

Só havia o desespero:
- Alô?
- Não desliga.
- O que você quer?
- Uma chance.
- Mais uma?
- Por que nós não conseguimos conversar?
- Porque já dissemos tudo o que precisávamos.
- Não é verdade.
- Claro. Há coisas que não podem ser ditas, não é?
- Você está sendo imatura.
- E você, covarde.
- Você não quer me deixar.
- Já deixei.
- Mas você não quer.
- Que diferença faz?
- Você é teimosa, caramba!
- Eu? Quem é o rei da resistência? Quanto tempo eu tive de esperar até que você decidisse parar de lutar contra o que sentia? Fui eu quem chorei por anos, quem quis cometer suicídio, quem saiu por aí transando com qualquer um que cruzasse meu caminho, em busca do que você não podia, não queria me dar.
- Ah, por favor, não começa!
- Foi você quem começou.
- Não dá pra conversar com você.
- Você não devia ter ligado.
- Não devia mesmo.
- Definitivamente, não.
- É que eu te amo.
- De que adianta?
- Não basta?
- Não, só amor não basta.
- O que você quer mais de mim? Pelo amor de Deus, me diz, o quê? Eu deixei de lado meu orgulho por você! Eu fiz escolhas perigosas por você. Não basta? Eu sou um homem inseguro agora, dependente de alguém que me perseguiu, que me desestabilizou, que virou o meu chão!
- Por que você está gritando?
- Porque eu não me conformo em amar alguém que se esforça tanto pra ser infeliz, que se vitimiza a todo instante, que precisa culpar todo mundo à sua volta pelas suas neuroses tão inconvenientes e batidas! Você me faz mal!
- É por isso que estou deixando você.
- Porque eu te digo a verdade?
- Porque eu te faço mal.
- E daí?
- Eu não suporto machucar mais alguém.
- O estrago já está feito, continua!
- Não pode ser assim.
- Você me ama?
- Sim.
- Ainda é apaixonada por mim?
- Sim.
- Você sente tesão por mim?
- Sim, sim! Quantas vezes você quer ouvir sim?
- E quando você ama, você deixa?
- Sim.
- Deixa?
- Se você ama de verdade, você deixa.
- Não deixa, não. Eu vou ficar pior sem você.
- Você vai superar.
- Como você sabe? Eu posso não resistir e me atirar na frente de um ônibus. Ou ir para o centro e pular de um prédio. Parar de comer. Fica. Eu vou ficar pior sem você, fica.
- Eu te canso.
- Fica.
- Eu te exponho.
- Fica.
- Eu confundo você.
- Por favor, fica.
- Eu não te compreendo, não te divirto.
- Fica.
- Eu não consigo fazer você feliz.
- Eu não me importo, eu não preciso. Minha história não existe sem você. Fica.
Ilustração: Despair, felipe lima.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O pé grande e a melancia
Cansada, entediada e com a libido em coma, Lúcia partiu quase que involuntariamente numa jornada de sexo e descobertas iniciada num chat na internet, com um podólatra dez anos mais jovem, louco por gordinhas. Curiosa com as possibilidades de realização sexual invariavelmente ligadas ao recém conhecido Big Foot, Lúcia, conhecida no cyber espaço como Chupa Que é de Melancia - revelando uma audácia peculiar desconhecida até então - quis encontrar-se o quanto antes com o rapazinho que lhe prometia prazeres estratosféricos e mais.
Depois de duas semanas de negociações intensas, marcaram data, hora e local para aquela que seria, sem dúvida, a maior aventura de sua vida. Naquele mês, Melancia deixou de comprar o presente do filho mais velho - que faria nove anos - para investir em uma belíssima lingerie GG, que comprou de uma amiga sob pretexto de uma última tentativa de desafogar o casamento.
Chegado o dia, Lúcia não conseguia trabalhar, eufórica, levantando suspeitas dos que a observavam. Às 18 horas saía do trabalho e caminhava direto à estação de metrô, que a levaria até o centro num trajeto de pouco mais de cinco minutos. Chegando ao local combinado, passou a olhar os transeuntes buscando a figura que Big Foot havia descrito.
Lúcia tentou, mas não conseguiu segurar o queixo ao ver em sua frente, sorrindo com os belos dentes a mostra, um homem forte, loiro, 1,80 metro, 76 quilos, vestindo jeans e camisa verde-musgo. E transcendeu o êxtasi ao ouvir, quase sem acreditar:
- Acho que vai ser melhor do que eu esperava.
- Vai? - balbuciou.
Partiram dali para um aconchegante flat com cerca de 50 metros quadrados, cama resistente e vídeos estimulantes. Subiram as escadas já se agarrando, numa urgência lasciva que os levou a percorrer os móveis do espaço, o sofá de dois lugares, o balcão da cozinha americana. Lúcia não podia acreditar que tivera coragem para tanto, e sobretudo, que tivesse tido sorte em encontrar alguém que parecia admirar o que sempre acreditou ser seu maior defeito. Pé Grande passeava por aquele corpo imenso, dando atenção especial aos pés inflados de Lúcia, que num ímpeto de tesão já nem se reconhecia mais nela mesma, acordando dentro de si uma mulher capaz de sentir e sobretudo (e o que parecia ainda mais importante) dar prazer.
Despediram-se já marcando encontro para o dia seguinte. Na sexta, sentindo-se pela primeira vez em alguns anos importante para si própria, Lúcia teve um excelente dia de trabalho, realizando suas tarefas com agilidade e eficiência surpreendentes.
Após o expediente, do lado de fora do prédio, Murilo - o Pé Grande - já a aguardava com excitação. Lúcia entrou no carro rapidamente e juntos partiram para o motel mais próximo. Semanas seguiram-se nessa rotina inebriante. Murilo e Lúcia, depois de algumas noites sem informações complementares, passaram a interessar-se pelas histórias um do outro. Lúcia falou sobre os filhos, sobre quanto os amava, mostrou fotos que fizeram Murilo encantar-se pelas crianças - que ela prometeu apresentar (um dia). Murilo falou sobre trabalho, sobre ex-namoradas e infância. Passaram a nutrir uma cumplicidade que ia além da cama e em alguns meses não podiam ficar sem se falar por sequer um dia, sob risco de sufocamento pela realidade.
Protagonizaram momentos inusitados em várias ocasiões. As pessoas não conseguiam conceber a harmonia apresentada pelo casal diante da disparidade de seus perfis, mas este fato passou a não os incomodar à medida em que reconheciam-se como personagens de uma história incomum e - mais do que embaraçosa - desconcertante.
Passado mais um tempo, junto com todas as mudanças trazidas com a chegada de Murilo - novo cargo, mais auto-estima e realização - Lúcia decidiu que chegara o momento de mandar seu marido zarpar para o bar mais próximo e passar a visitar os filhos somente nos fins de semana. Assumiu então o romance com Murilo, permitindo que a fantasia desse lugar à realidade sem que se perdesse, no entanto, a magia de um encontro como aquele.
Os dois passaram a almoçar juntos, ir juntos ao shopping - primeiro a sós, como um casal de namorados em início de relacionamento, depois acrescentaram as crianças ao passeio - e assim, quase sem perceber, criaram um vínculo inesperado de cumplicidade e afeto.
E foi assim que Lúcia percebeu que a vida tem maneiras muito peculiares de nos fazer felizes, quase como se zombasse de nós, mostrando-nos a cada dia que das maneiras mais incrivelmente absurdas, podemos sim, mudar o rumo de nossos destinos.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
The cookbook
- Você pode largar essa panela e olhar pra mim, enquanto falo com você?
- Eu estou comendo.
- Então tudo bem, sem conversa, não é?
- Por que você tem sempre que ser tão decepcionante?
- É um dos meus charmes, ora!
- Era, no início do nosso relacionamento, quando tudo parecia bonitinho.
- Parecia? E o que é que mudou?
- Você, eu. O mundo.
- Não, não começa.
- Foi você quem começou. Eu argumentei, apenas.
Ela continuou com a cara na panela, entretida com uma deliciosa porção de brigadeiro. Ele prosseguiu:
- Você está insatisfeita, não é?
- Neste instante, não. O chocolate libera uma substância que age diretamente na área do nosso cérebro responsável por promover sensações de satisfação e contentamento.
- Eu estou falando sério! Você pode tentar fazer a mesma coisa?
- Você sabe que sim.
- Então por favor! Estou tentando discutir algo relevante com você.
- Tudo bem, me desculpe.
Os dois manteram um breve silêncio.
- Você não vai falar?
- Falar o quê?
- Cristo! Você está quase me estapeando, coisas sérias estão acontecendo. Me diga, o que é?
Resignado, ele disse, enfim:
- É o brigadeiro.
- O quê?
- O brigadeiro. Você errou na consistência de novo, está vendo? Não está com consistência de brigadeiro, mas de leite condensado e chocolate. Precisa de consistência, entendeu? Só da certo quando a mistura atinge aquele ponto, na fervura, em que a combinação dos dois elementos desgruda do fundo do recipiente.
Ela o olhava, encantada com a seriedade com que ele tratava do assunto:
- Eu sou apaixonada por você. Ainda.
- Eu também, mas pôxa amor: pelo menos o brigadeiro.
