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quarta-feira, 16 de julho de 2008

As confissões da Srta. Nina Bar

Compreendo que, ao cometer suicídio mergulhando num mar revolto e frio, a Srta. Nina Bar já estava morta, não vivia mais.
Já havia morrido pra si mesma, não reconhecendo-se em meio a tantos personagens criados por e para ela.
Não era mais capaz de amar e ser amada (depois de tanto amar), sucumbiu em meio as ondas tenebrosas de um maremoto dentro do peito.
Morreu temendo que os muros espalhassem seus segredos, escondendo-se do mundo.
Revelando-se sempre aos que a permitiam.
Nina era forte mas não quis usar forças; demonstrar forças era sinal de fraqueza.
Nina despedaçou-me. E me ensinou a remontar, pedaço a pedaço, uma alma em cacos.
Com todos os erros e uma disposição invejável para descobrir a verdade sobre suas emoções.
Usufruindo de tudo, de cada pedaço do mundo.
Desnudando corpos, caras, almas.
Pecando, redimindo-se. Inúmeras vezes.
De tanto viver e viver de tudo, acordou e percebeu-se já morta, não havia mais o que fazer aqui.
A data: doze de junho. Nina não se lembrava que era dia dos namorados, portanto, minha suspeita inicial de que sua dor era de cotovelo, não se firmou.
(Àquela época, a propósito, Nina mantinha um caso com um homem jovem e casado, pai de duas meninas, por quem esteve apaixonada. E só tinha dezenove anos).

quarta-feira, 25 de junho de 2008

As confissões da Srta. Nina Bar


Foto: felipe lima

Torno-me íntimo de Nina. Ler seus manuscritos faz com que me sinta cúmplice em suas histórias. Como se eu fosse um amigo a quem ela, sem reservas, revela suas aflições:

"Procurei o meu pai em todos os homens com quem me deitei. Foram muitos. Usei desse artifício sempre que me sentia carente ou amedrontada, confusa e também angustiada. E dessa forma consegui ser promíscua o bastante para sentir que era uma vadia, por isso merecia ser infeliz.

Me convenci, posteriormente, de que o motivo da minha infelicidade não eram os traumas deixados pela ausência de meu pai, ou qualquer tragédia em minha infância, ou ainda o meu total desastre no amor, mas a minha auto-estima rastejante, que nunca permitiu que me sentisse digna de afeto".

Triste.

sábado, 21 de junho de 2008

As confissões da Srta. Nina Bar

Um trecho das reflexões da Srta. Nina Bar:

"Durante toda a minha vida, por não saber de nada nunca duvidei de nada. Contudo, com o tempo aprendi a desacreditar das verdades absolutas, pois creio que elas não existem. E é assim, desaprendendo a um monte de coisas que descubro-me a cada dia.

Conheço pouco de mim e mostro-me pouco aos que convivem comigo por simples receio da opinião alheia. E ainda sinto que escondo de mim mesma blocos da minha personalidade, embora faça um esforço gigantesco para trazê-los à tona. Porque pior do que fazer com que as pessoas descubram a confusão que sou, é não encarar a verdade e ser tomada pela hipocrisia".

terça-feira, 17 de junho de 2008

As confissões da Srta. Nina Bar

Descubro, com surpresa, que a Senhorita Nina Bar deixou diversos manuscritos com casos de sua conturbada vida. Não posso esclarecer com exatidão, como estes manuscritos chegaram até mim, mas não pude conter a curiosidade, aguçada pelas tristes circunstâncias de sua morte. O fato, é que sensibilizado pelas histórias da Srta. Bar, resolvo compartilhá-las, seguindo o pretexto de que a vida de cada um de nós merece um livro. Ou, neste caso, um post num blog com poucos visitantes.

A primeira vez que a Srta. Bar deparou-se com o objeto de sua paixão (um colega de classe), era ainda uma adolescente, imatura, desconhecendo o motivo de ter sido jogada no redemoinho da vida. Encantara-se naquele instante e tão desesperadamente, que deixou de temer a morte, desde que a morte chegasse para romper com a eternidade – quando assim Deus decidisse – ao lado daquele homem. E foi assim, escancarada, que Nina se jogou na vida sem muitos temores. Inconseqüente, querendo viver a eternidade em um minuto.

“Estou sofrendo de um fanatismo quase cruel”. A leitura das primeiras páginas revela uma paixão de intensidade desconcertante. Um sentimento não correspondido - tristemente – que desconheceu comedimentos. Nina queria ser vista, tocada, compreendida, mas aos poucos sucumbiu ao desespero dos desapontamentos freqüentes. Chateava-se consigo própria, com sua paixão, com Deus, com os ponteiros do relógio: morosos, pesados, arrastando-se em voltas lentas e intermináveis. Morria nos fins de semana, quando não o via; odiava feriados, quando ausentava-se da escola. Dessa maneira, sem esforço, conseguiu contatos e uma aproximação densa, que desencadeou um leque de mal-entendidos e decepções.

“Andei pelas ruas como uma louca. Transtornada, quis encontrá-lo, e nessa noite revelei minha paixão. Ele não soube o que dizer. Em outras palavras, admitiu não estar preparado para entregar-se a um sentimento de tamanha complexidade. Tentou ser doce, respeitou-me, embora tenha me perguntado se havia deixado de ir à igreja. Respondi que em nenhuma igreja estive mais próxima de Deus do que quando estou em meu quarto. Acreditei, inocentemente, que teria chances a partir daquela data, mas desde então encarei um inferno sem precedentes: O preço pago por dizer a verdade”.

Aos poucos, a Srta. Bar deixa escapar que acreditou poder causar mudanças profundas na vida daquele homem. Torná-lo pleno, apresentar-lhe a força sobrenatural de um sentimento que não cabia em uma só pessoa, mas precisava ser repartido, compartilhado com cumplicidade devotada, com a obrigação egoísta de lançar toda a realização do mundo a duas almas sedentas por afeto.